A importância do tempo para não fazer nada

29/05/2017

Embora em pequenas doses o estresse possa ser benéfico e nos impulsione para a ação e realização de objetivos, quando esse estado é constante e intenso seus efeitos são preocupantes.

 

 

Os números são impactantes. Dados da International Stress Management Association (Isma) indicam que, no Brasil, 70% dos adultos economicamente ativos sofrem hoje de estresse e quase metade desse contingente sente-se sobrecarregada em razão do trabalho. Brasileiros, aliás, ocupam o segundo lugar nesse ranking pouco atraente dos mais estressados do mundo – perdendo apenas para os japoneses. O quadro tem consequências graves: estudos científicos indicam que o nível de estresse e o estilo de vida da pessoa determinam 60% das doenças que ela pode vir a desenvolver. Especialistas americanos estimam que cerca da metade das internações diárias nos Estados Unidos atualmente é causada por distúrbios direta ou indiretamente decorrentes da sobrecarga, principalmente emocional: são mais de 230 milhões por ano. 
 

Ainda assim, o estresse tem seu lado positivo. Os especialistas concordam que pode ser benéfico, desde que ocorra em doses pequenas. Quem vive experiências instigantes e descortina horizontes inteiramente novos está sujeito a uma excitação estimulante. Evitar o estresse a qualquer custo, além de impossível, seria, portanto, indesejável.
 

“Quem vive de modo excessivamente pa-cato também sofre com estresse causado pelo tédio e pela monotonia”, afirma o endocrinologista Sepp Porta, chefe do Instituto para Pesquisas Aplicadas do Estresse, em Graz, na Áustria. Estudos confirmam suas palavras: a calma duradoura é tão estressante quanto uma vida demasiadamente agitada.
 

A diferença mais marcante entre as pessoas muito e as pouco estressadas foi encontrada por pesquisadores ingleses do Centro Internacional de Saúde e Sociedade, por meio do estudo Whitehall II. Durante vários anos, foram analisadas a saúde e as condições de trabalho e de vida de 10 mil funcionários públicos de meia-idade. Os resultados mostraram que a diferença fundamental na suscetibilidade ao estresse não reside nem nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica dos indivíduos, mas em um fator psicossocial: quanto mais autônoma e dona de seu destino é uma pessoa, tanto menos está sujeita a tensões e ao estresse. 
 

É por esse motivo que, de acordo com os resultados coincidentes dos estudos americanos, suecos e ingleses, funcionários em posição de comando não apresentam a maior incidência de problemas decorrentes de tensão nervosa. Apesar de terem agendas superlotadas e carga excessiva de trabalho, pessoas em cargos de comando são muito mais relaxadas que seus subalternos. Estes, embora só precisem trabalhar oito horas por dia, têm de cumprir tarefas que lhes são impostas, obedecer a prazos e ritmos de trabalho. E, muitas vezes, se frustram quando não se sentem reconhecidos como gostariam. 
 

Várias pesquisas recentes mostram a alta proporção de vítimas de infarto que sofreram rebaixamento profissional e com isso perderam liberdade de decisão. É provável que algumas delas apresentassem propensão genética ao estresse; outras talvez carregassem traumas de infância e, em vários casos, o infarto estava relacionado às suas características de personalidade. Mas não há dúvida de que, na maioria dos pacientes, o fator psicossocial exerceu papel determinante no desencadeamento do quadro. Em última instância, porém, o fator psicossocial é o único aspecto que decorre em sua totalidade da ação humana, o que abre possibilidade de ser modificado, já que não há como influenciar a herança genética de um indivíduo, a não ser por suas experiências de vida e os traços de personalidade (ou a maneira de lidar com eles) dificilmente são alterados sem um trabalho psicoterapêutico consistente.
 

Apesar dos bons efeitos, as formas de combate ao estresse – exercícios físicos e relaxamento muscular, por exemplo – não alteram estruturalmente as fontes de estresse. Nos últimos anos, cada vez mais especialistas têm concordado que, tão importante quanto mudar as coisas em si, concretamente, é imprescindível alterar a relação que temos com as situações da própria vida. 
 

Há alguns anos, a psicóloga Rebecca Shansky, pesquisadora da Universidade Northeastern, em Boston, descobriu, em estudos com animais, que o estresse prolongado afeta as conexões entre os neurônios no córtex pré-frontal. Nos seres humanos, essa região regula funções cognitivas superiores como a concentração e a organização. Alterações estruturais podem levar a deficiências nessas funções. Há pessoas que se sentem especialmente estimuladas quando são desafiadas com questões trabalhosas, mas não impossíveis de serem resolvidas. “Nesses casos, a pressão mental pode energizar o desempenho, mas sempre há um limite para o que podemos suportar de forma saudável”, observa o pesquisador Stuart Sidle, da Universidade de New Haven, em Connecticut. Na maioria das vezes, o “remédio” para a sobrecarga do cotidiano pode ser mais simples do que a maioria das pessoas imagina. “Para manter a sanidade, basta dar um passo atrás”, afirma Rebecca Shansky. 
 

As pausas são importantes não só para garantir saúde psicológica, mas para manter o bem-estar físico. Estudos realizados por ela em animais revelam que se após um período grande de estresse houver um período de descanso, as mudanças neuroanatômicas tendem a se reverter. “Precisamos recarregar nossas baterias mentais, por isso ter tempo simplesmente para não fazer nada é fundamental”, argumenta o pesquisador Phillip Clifford, da Faculdade de Medicina de Wisconsin, em Milwaukee, numa referência à ideia do ócio criativo, apresentada por Domenico de Masi. O cientista italiano se tornou famoso ao defender uma melhor distribuição entre atividade profissional, estudo e lazer. Diferentemente do que alguns acreditavam, ele não prega a diminuição das horas trabalhadas, mas a diversificação de atividades, com maior integração entre produção e prazer.
 

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de outubro de Mente e Cérebro.

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