Afinal, qual é a fronteira que separa um problema comum da vida de um transtorno mental?

11/11/2016

A crescente tendência de diagnosticar e medicar qualquer sofrimento emocional é criticada por especialistas.

 

 

Se você come demais de vez em quando, fique atento: pode sofrer de transtorno de compulsão alimentar periódica. Se tem mania de doença, é candidato a um transtorno somatoforme. Se anda esquecido, pode ser sinal de transtorno neurocognitivo leve.

 

Mas será mesmo? Classificações como essas estão descritas na quinta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), que é editado nos Estados Unidos e considerado uma espécie de Bíblia da psiquiatria mundial, mas são alvo de discussões entre os profissionais de saúde.

 

 

Na visão dos críticos, como o psiquiatra norte-americano Allen Frances, que está lançando no Brasil o livro Voltando ao normal, haveria um exagero nessa tendência crescente de diagnosticar e medicar qualquer tipo de sofrimento. Afinal, qual é a fronteira que separa um problema comum da vida de um transtorno mental?

 

Esse é o grande dilema da psiquiatria. O que é normal? O que é patológico? É muito fácil dizer se um paciente tem pneumonia ou não, mas em casos de depressão, por exemplo, os limites são mais tênues — pondera o psiquiatra Flávio Milman Shansis, presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

 

No país, um dos espaços de contestação ao excesso de prescrições é o Fórum de Medicalização da Educação e da Sociedade, que desde 2010 mobiliza uma série de entidades. Um dos signatários, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), lançou em 2012 a campanha Não à medicalização da vida.

 

Existe uma lógica medicalizante que transforma problemas e questões sociais, culturais e econômicas em doenças. Se baliza todo mundo com um protocolo a seguir, tudo tem diagnóstico. Se a pessoa faz muita coisa é hiperativa, se não faz nada é depressiva. E isso tem a ver com um modelo de vida baseado no consumo: consomem-se diagnósticos, remédios. Não há espaço para a normalidade. Nessa lógica, um luto normal só pode ir até cinco dias, e se no sexto dia a pessoa ainda estiver triste, é transtorno — exemplifica a psicóloga Carolina Freire de Carvalho, que representa o CFP no fórum.

 

Uma das consequências é a popularização do consumo de substâncias como o metilfenidato, o princípio ativo da Ritalina, prescrito para pessoas com déficit de atenção, ou de clonazepam, a base do Rivotril, comumente receitado para ansiedade. E o mercado contribui para estimular o consumo. Segundo a farmacêutica Maria Fernanda Barros, coordenadora do Centro de Informações sobre Medicamentos do Conselho Regional de Farmácia da Bahia e também representante da entidade do fórum, a indústria investe três vezes mais em marketing do que em pesquisa e desenvolvimento.

 

Nos preocupa esse uso "recreativo", de gente que toma remédio para estudar, para aumentar a concentração. O metilfenidato é da família das anfetaminas, assim como a cocaína, e pode provocar muitos sintomas perigosos se o uso não for feito de forma adequada — alerta, lembrando que há casos até de mortes associadas ao consumo abusivo.

 

Outras formas de tratar os sintomas:

 

O psiquiatra Flávio Milman Shansis, também professor de residência em psiquiatria do Hospital São Pedro, concorda que a psiquiatria corre o risco de banalização de diagnósticos. Ele observa que frequentemente ocorrem "modas", que levaram à disseminação de registros de síndrome do pânico, nos anos 1990, seguida pelo déficit de atenção e, mais recentemente, pelos transtornos bipolares. Ainda assim, avalia que o problema não seria o manual, e sim o mau uso que se faz dele.

 

Temos vários problemas no DSM-5, mas ainda é o melhor que já tivemos. O que não se pode é utilizá-lo como se fosse uma lei, sem espaço para avaliação clínica — defende.

 

Para o psiquiatra Marcelo Pio de Almeida Fleck, professor titular do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mais preocupante do que a categorização feita pelo DSM-5 é a crença de que o único jeito de tratar os sintomas é com remédio. Ele salienta que, em outros momentos da história, já houve ondas com maior e menor número de diagnósticos. A diferença é que, atualmente, casos mais leves começaram a receber nomes e serem passíveis de tratamento, o que aumentou o universo potencial de pessoas com problema mental.

 

Por um lado, isso pode resultar em hipermedicalização, o que preocupa. Mas também é preciso lembrar que, quanto mais cedo se intervém, mais fácil o tratamento, assim como em outras áreas da medicina. O fato de existir o diagnóstico não quer dizer que a intervenção tenha que ser feita com medicação. Alguns quadros podem melhorar com exercício físico ou mudanças na alimentação — destaca.

 

Pílulas pra que te quero:

A alta no consumo de medicamentos em números:

 

Em 10 anos, o uso de metilfenidato — o princípio ativo da Ritalina, nome comercial — cresceu 775% no país, passando de 94 quilos consumidos em 2003 para 875 quilos em 2012. Já a importação e a produção da substância, indicada para o tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, cresceram 373%, passando de 122 quilos em 2003 para 578 quilos em 2012.

 

Rio Grande do Sul e Distrito Federal registram os maiores índices de caixa de Ritalina por mil habitantes no Brasil. A cada cem gaúchos, pelo menos dois compram uma caixa de Ritalina. Em Porto Alegre, cerca de três pessoas a cada cem compraram pelo menos uma caixa em 2013.

 

 O registro nacional de fornecimento de medicamentos controlados aos usuários aumentou 161% em cinco anos. Saltou de pouco mais de 113 mil caixas, em 2009, para quase 295 mil em 2014.

 

 Em 2013, o Brasil tornou-se o maior fabricante de clonazepam, prescrito para transtornos de ansiedade e de humor, com 3,2 toneladas. O país é seguido por Itália e Suíça, com 2,3 toneladas cada.

 

O Rivotril, da Roche, um dos remédios que têm o clonazepam como princípio ativo, foi o 13° medicamento com o maior volume de vendas em reais em 2012, tendo movimentado R$ 113,96 milhões. A substância está presente em 68 diferentes formulações no mercado brasileiro, incluindo os genéricos.

 

 O consumo de clonazepam apresenta constante aumento com um grande salto a partir de 2010, quando as vendas passaram de 755.567 caixas, em 2009, para mais de 1,5 milhão de caixas, um aumento de mais de 200%.

 

Fontes: Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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